Um caso especial
(Anita)
Na saída do trabalho Marina
sempre passa na padaria para comprar um lanche.
Neste final de tarde, não
foi diferente:
- Por favor, um croissant de
queijo e presunto.
- Oi Marina, é só isso hoje?
Perguntou a balconista. Miúda e de cabelos espetados Rita lançou-lhe seu olhar
enigmático, exibindo o piercing da língua. - Que tal uma bomba de chocolate
para acompanhar?
- Que isso menina, quer
acabar comigo? E a minha dieta como fica? Disse Marina sorrindo para sua
amiga...
- Você que sabe... Mas te
digo, o Ricardo caprichou no recheio hoje. Está uma de-lí-cia!
- Não querida... Obrigada...
Amanhã... Quem sabe?
Marina pegou seu saquinho de
papel com um único croissant, pagou e se despediu:
- Bye bye Rita... Até amanhã
Foi caminhando para seu
apartamento que ficava a apenas algumas quadras de distância de seu escritório
de advocacia.
Pelo adiantado da hora todos
os outros estabelecimentos comerciais já estavam fechados exceto a
lanchonete... Quando Marina virou a esquina, sentiu aquela insegurança que só
as mulheres experimentam em um lugar deserto e escuro... Seus pelos da nuca se
arrepiaram e Marina olhou para trás desconfiada... Mas apenas Midnight, o gato
sobre a lixeira, devolveu seu olhar brilhante...
Marina pensou divertida:
- Nossa estou vendo muito
filme de terror... E continuou caminhando apressada em direção ao seu
edifício... Mas escutou passos acompanhando os seus e virou-se para trás
novamente, não enxergando nada na escuridão da rua estreita... Apressou o passo
não conseguindo evitar o sentimento de ansiedade em chegar logo à área iluminada
da portaria de seu prédio logo à frente. Quanto mais rápido Marina andava... Mais
os passos que a acompanhavam também aumentavam... Assim, quando chegou à
portaria iluminada Marina irrompeu pela porta de vidro quase correndo,
assustando Seu Antônio que dormitava em sua cadeira giratória atrás do balcão
da recepção.
- Marina, o que houve,
menina... Está apavorada...
- Ai Seu Antônio, acho que
tinha alguém me seguindo...
- Pode deixar que eu vou dar
uma olhada...
Seu Antônio foi até a
portaria olhou, caminhou um pouco na direção onde Marina disse ter escutado os
passos, mas não viu ninguém...
- Bem Marina, a pessoa que
estava te seguindo fugiu assustada com minha feiura... Brincou Seu Antônio,
para acalmar Marina...
- Ah... Seu Antônio, só o
senhor mesmo para me fazer rir... E foi para seu apartamento, pensando se foi
só sua imaginação ou se tinha alguém mesmo seguindo-a...
No dia seguinte Marina
acordou cedo como sempre e foi para seu escritório para mais um dia de
trabalho, tentando resolver o difícil caso em que estava trabalhando... Seu
namorado Ary já estava esperando com duas xícaras de café.
- Bom dia, Marina, e
levantou-se para dar dois beijos em sua face... Dizendo: - Está cheirosa...
- Bom dia Ary, este café é
para mim, querido? E pegou a xícara da mesa...
- Sim querida, como você
gosta, com leite e açúcar...
- E o caso da criança
problemática, já conseguiu descobrir se o que ele diz é verdade?
- Ah... Sabe como é “né”
Marina, para se livrar esses safados falam qualquer coisa... E deu sua risada
sarcástica...
- Não fala assim Ary, ele me
pareceu bem assustado e nervoso e essas não são características de um assassino
sanguinário, como todos estão dizendo...
- Mas Marina, dizer que a
casa foi invadida por um maníaco e ele através da telecinese da qual é possuidor
conseguiu escapar... É um pouco demais “né”? Coisa de maluco querida... Se ele
tem essa habilidade porque nunca apareceu na TV... Sei lá... Nunca foi para um
laboratório da NASA... E riu divertido da sua própria piada...
- Na entrevista que fiz com
ele Ary, ele me pareceu apenas um garotinho assustado... Disse-me que a mãe
tentava esconder as habilidades dele por medo de que alguém o raptasse...
Achei-o tão maduro para 8 anos...
- Você está se afeiçoando a
ele querida, precisa é ser mãe... E se aproximou abraçando Marina e beijando
seu rosto... Eu já disse que me habilito...
- Querido, ainda é cedo para
pensar nessas coisas, nos conhecemos há pouco tempo... Saímos apenas algumas
vezes... Vamos ver como evolui nosso relacionamento, ok? Aceitou o beijo
carinhoso que Ary lhe deu nos lábios, mas disse se afastando:
- Aqui no escritório não
querido, pode aparecer alguém... Bem, consegui o direito de conversar com ele
mais uma vez... A assistência social está evitando o meu contato com ele...
Disse Marina. -Você ainda não conseguiu encontrar parentes do menino?
- Infelizmente não... Parece
que eram só os dois mesmo... Ele foi adotado e sua mãe biológica morreu em
circunstâncias obscuras... Até hoje o caso está em aberto... Parece que morreu
afogada... A mãe adotiva era promoter de festas, bastante conhecida, mas bem
solitária... Ele frequentava a escola local, estive lá e a professora disse o
mesmo que você: Menino muito inteligente, maduro para a idade, responsável, mas
solitário... Boas notas. E só descobri isso... Eu te digo Marina, ele matou a
própria mãe, a mãe adotiva e inventou essas histórias para se livrar...
- Não consigo acreditar
nisso Ary...
Ary e Marina conversaram
mais um pouco sobre esse caso e passaram para os outros que Marina era
responsável indicando Ary para as investigações de campo, já que ele era um
excelente investigador...
À noite Marina muito cansada
do dia estafante no escritório, nem parou na Lanchonete da Rita para o seu
lanchinho noturno habitual... Caminhou apressada direto para o seu
apartamento...
Quando dobrou a esquina,
lembrou divertida da noite anterior, quando imaginou ter escutado passos
seguindo-a... Mas parou de rir, quando no trecho mais escuro da rua, ouviu
novamente os passos e seus pelos se eriçaram em uma reação natural ao instinto
de preservação... Olhou para trás... Mas não viu ninguém... Apenas ouvindo os
passos e pressentido a presença sinistra... Andando rápido, Marina passou pela
lixeira e seu habitual amiguinho felino acompanhou seus passos com seu olhar
brilhante... Sem se alterar. Quase correndo Marina passou direto sem parar para
brincar um pouquinho com ele como sempre fazia... Um pouco mais à frente, olhou
para trás novamente e se surpreendeu ao ver o gato se levantar assustado e se
eriçar todo na posição de defesa e ataque característica dos gatos... Marina
parou e virou-se... Mas não conseguiu enxergar o que ameaçava o bichano... Já
que a escuridão era total... Midnight deu um salto, tentando escapar do que o
ameaçava e sumiu na escuridão... Mas inesperadamente o pobre gato foi
arremessado de volta contra a parede, soltou um miado agudo e desesperado e
caiu atrás da lixeira, não emitindo mais som algum... Marina não precisou de
mais incentivos... Desandou a correr até alcançar desesperada a portaria do
edifício... Gritando assustada:
- Seu Antônio, Seu
Antônio...
O pobre velho deu um salto
da cadeira, e quase caiu sobre o balcão:
- O que foi Marina, você
está pálida como um papel... Viu um fantasma?
- Seu Antônio, é o
Midnight... Acho que ele está morto...
- Mid o quê? Quem?
- É o gato do prédio no
início da Rua seu Antônio... Aquele preto que vive sempre sobre a lixeira...
- Ah... Sei qual é... Muito
mansinho...
- Então... Quando eu estava
chegando... Alguma coisa o arremessou contra a parede e... Acho que ele está
morto...
- Pode deixar Marina, vou lá
ver o que houve...
- Não Seu Antônio... Não
quero que o Senhor se arrisque... Pode te acontecer alguma coisa...
- Que nada Marina... Deve
ser algum moleque das redondezas maltratando o pobre gato... Deixa que já dou
um jeito de encontrar a mãe desse pequeno vândalo...
- Não Seu Antônio... Eu ouvi
passos... Me seguindo...
- De novo, Marina?
- Sim Seu Antônio... Fica
aqui comigo...
Nisso que os dois estão
conversando, seu Antônio abraçou Marina para consolá-la... A porta de vidro se
abre lentamente e Ari entra assoviando, com aquele seu jeito despreocupado...
Mas ao ver o estado de sua
namorada... Descabelada e muito nervosa... Pergunta desconfiado:
- O que está acontecendo?
- Marina se vira assustada,
caminha em direção a Ary e pergunta:
- Você viu o que aconteceu?
– Estava logo atrás de mim?
- Não vi nada... Mas o que
houve?
- Ah Seu Antônio, esse é o
Ary, meu namorado...
- Ary, esse é o Seu Antônio,
meu amigo aqui do prédio...
- Muito prazer, rapaz... O
que aconteceu é que alguém anda assustando a Marina... Eu quero ir lá ver quem
é... E ela acha que eu não devo ir...
- O que aconteceu
exatamente, Perguntou Ary, impaciente.
- Marina contou toda a
história novamente, agora mais calma... E finalizou: - Você chegou logo atrás
de mim... Era para ter visto alguém... Ou pelo menos ter escutado alguma
coisa...
- Não vi nem escutei nada,
mas posso ir lá dar uma olhada... Para te tranquilizar...
- Tudo bem... Então vamos
todos, retrucou Marina...
Os três se dirigiram para o
local onde ficava a lixeira do outro prédio... Ary ligou a lanterna do seu
celular e atrás da lixeira puderam ver o corpinho de Midnight imóvel...
- Sinto muito Marina, sei
que você gostava deste gatinho, disse Seu Antônio... Que maldade...
- Bem, não podemos fazer
mais nada por ele... Disse Ary.
- Pode deixar que amanhã eu
aviso aos donos dele, onde ele está... E o que aconteceu...
Já voltando para o prédio
Marinha perguntou com os olhos cheios de lágrimas:
- E o que, exatamente
aconteceu, Seu Antônio... Até agora eu não consegui entender...
- Eu te digo, querida... Foi
um moleque...
- Deve ter sido isso mesmo
Marina. Disse Ary
Marina olhou para Ary,
desconfiada:
- Você não viu mesmo nada
Ary?
- Não... Não vi.
Na entrada do prédio Marina
perguntou:
- Quer subir para tomar um
café?
- Ary abriu um sorriso
satisfeito e disse:
- Claro... Vou finalmente
conhecer seu apartamento... E soltou um comentário desagradável: - A morte do
gato, afinal serviu para alguma coisa... Ele não morreu em vão... E riu
divertido da própria piada macabra...
- Ary, como você pode dizer
uma coisa dessas... Nossa você é um cara legal, mas às vezes esse seu lado
sarcástico me assusta...
- Ah... “Vai lá” Marina,
desculpa vai... Querida era só um gato... Quem nunca maltratou um gato na
infância?
- Eu nunca maltratei... E
sei que maltratar animais é um sintoma de esquizofrenia, viu...
Chegando na porta do
apartamento, eles entraram e Marina ofereceu:
- Quer tomar um café ou
prefere algo mais forte?
- Um vinho desce bem, não
acha?
- Claro... Tenho um tinto
muito bom...
E foi para a cozinha...
Aproveitou e tirou alguns salgadinhos do freezer, aqueceu no micro-ondas e
colocou na bandeja levando tudo com cuidado para a sala...
Na sala encontrou Ary
instalado no sofá, com a camisa meio aberta e a gravata solta...
Marina depositou a bandeja
sobre a mesinha, sentou-se ao lado dele e perguntou:
- Porque você veio aqui Ary?
- Quando eu cheguei lá no
escritório a Solange me disse que você tinha acabado de sair... Eu queria te
contar a última novidade... Antes que a Mãe Social te conte: - Parece que nosso
garoto tem mesmo alguns “poderes” sensoriais... Consegue adivinhar as cartas e
movimentar alguns objetos...
- Nossa Ary, então ele está
falando a verdade e afinal não é ele o assassino...
- Pelo contrário querida...
Já que ele tem esses poderes, pode muito bem ter destruído a casa e empurrado a
mãe pela escada... Não é?
- Ary! É claro que não! Ele
tentou se proteger arremessando coisas sobre o invasor, que empurrou a mãe dele
da escada... Acredito na versão dele... viu...
- Querida não vamos começar
novamente essa discussão... Vamos sim brindar a um relacionamento longo e
feliz...
Marina serviu o vinho nas
taças e entregou uma delas a Ari que disse animado:
- Ao nosso amor e ao nosso
futuro...
Marina apenas sorriu encostando
sua taça na dele...
Ary colocou sua taça sobre a
mesinha e se inclinou, beijando os lábios de Marina, que aceitou o carinho com
naturalidade, entregando-se ao beijo...
Ary se animou com a
receptividade, retirou a taça da mão de Marina e colocou-a ao lado da sua,
abraçando-a com carinho e beijando-a novamente nos lábios, ao mesmo tempo em
que tocava seus seios com delicadeza, testando a aceitação de Marina...
Marina suspirou e abraçou
Ary, beijando-o na orelha e no pescoço... Dando com isso permissão para mais
intimidades...
Ary desabotoou a camisa de
Marina olhado maravilhado para o sutiã meia taça que cobria precariamente os
lindos seios de sua amada... Olhou Marina nos olhos e disse embevecido:
- Eu te amo... Você está se
tornando a minha obsessão...
- Marina sentiu seu coração
dar um pulo de emoção com essas palavras carinhosas e retribuiu beijando-o
profundamente e desabotoando a camisa de Ary...
Passou a mão por seu tórax
peludo e disse em seu ouvido:
- Ah querido, como eu
esperei para ouvir essas palavras... Antes mesmo de começarmos a sair juntos eu
já me sentia atraída por você...
Marina se levantou retirando
a camisa e colocou uma música suave no aparelho de som... Virou-se novamente
para Ary e veio caminhando lentamente enquanto desabotoava o fecho frontal de
seu sutiã exibindo os mamilos rosados e durinhos de antecipação...
Colocou-se entre as pernas
de Ary e ofereceu os seios pedindo mais carinhos... Ary sugou e passou a língua
em volta dos mamilos túrgidos, acomodando Marina em seu colo, Marina retirou a
camisa de Ary, beijando-o nos lábios sofregamente e dizendo em seu ouvido:
- Vamos para a cama
querido...
Ary se levantou com Marina
nos braços fortes e se dirigiu para o quarto logo ao lado... Depositando-a com
todo o cuidado na cama, retirou-lhe a saia, os sapatos de salto, as meias
finas, tudo com muito vagar, ao mesmo tempo que distribuía pequenos beijos e
lambidas por toda a área que desnudava... Por fim, deixou-a apenas de calcinha...
Marina com o olhar estreitado de desejo, abriu os braços convidando Ary, que
retirou as calças e o restante de suas roupas, rapidamente, exibindo-se
completamente nu e excitado. Deitou-se ao lado de Marina que sentiu sua
proximidade como um choque... Os dois corpos nus e quentes se tocando em toda
sua extensão... Beijaram-se longamente, entrelaçando pernas e braços em um abraço
de corpo inteiro... Marina sentindo a ereção de Ary pressionando seu abdome
liso... Ary se excitando cada vez mais com o contato da língua de Marina em seu
pescoço, orelha e rosto. Marina foi descendo a língua pelo peito de Ary
alcançando seu mamilo chato e duro de tesão, deu pequenas mordidinhas enquanto
estimulava seu amante com a mão... Ary disse com a voz entrecortada:
- Querida, assim eu não
aguento... Você está me matando...
Marina apenas sorriu e
continuou com a exploração daquele corpo masculino cheio de desejos... Desceu
mais a boca pelo abdome de Ary seguindo a flecha de pelos que desce passando
pelo umbigo e alcançando seu centro de prazer, beijou-lhe a ponta
carinhosamente... Ary gemeu alto, contorcendo-se de prazer... Marina passou a
língua por toda sua extensão e aplicou-lhe uma massagem com os lábios que Ary
guardaria na memória para sempre, quando percebeu que seu amante estava a ponto
de explodir, Marina sentou-se sobre ele, afastou a calcinha e se encaixou em
uma única arremetida, fazendo-o suspirar... Ary segurou Marina pela cintura e
começou a movimentar-se... Em busca do prazer... Marina inclinou o corpo
oferecendo os seios e Ary sugou forte enquanto a penetrava profundamente...
Percebendo a excitação de Marina, Ary colocou a mão entre seus corpos suados e
tocou-a suavemente no clitóris levando Marina à loucura... Quando percebeu o
gozo de sua parceira, não se conteve mais e chegou também ao orgasmo... Em uma
exclamação abafada de prazer entre os cabelos de Marina...
Os dois continuaram abraçados
por um longo tempo, até que Ary afastou Marina e disse uma de suas frases
desagradáveis: - Que gozada fantástica, querida, quem iria imaginar que a
Senhorita Pedra de gelo dos tribunais ia se revelar um vulcão na cama, heim...
E, como sempre, riu de sua própria piada...
Marina o olhou nos olhos,
cobriu-se com o lençol e disse consternada:
- Ary, será que eu estou
enganada com você? Será que foi um erro o que permiti que acontecesse?
- Que isso amor, o que foi
que eu fiz?
- São essas coisas que você
diz... Parece que às vezes você se torna um cafajeste...
- Não querida, me desculpe
se disse algo que te desagradou, mas foi um elogio... Nossa estou até agora
tremendo... Vê... E pegou a mão de Marina levando-a até o coração, que batia
forte e acelerado...
Marina o olhou nos olhos e
recebeu o beijo carinhoso de Ary, mas a dúvida continuou em sua mente: “Será
que estou apaixonada por um mau caráter ou ele é apenas direto demais como
resultado de sua profissão?” Analisou Marina em pensamentos...
- Você vai me deixar passar
a noite aqui querida?
- Acho melhor não Ary.
Amanhã preciso acordar cedo e ir para o Lar Social onde Henrique está, pois a
assistente social me deixou falar mais um pouco com ele...
- “Tudo bem querida”, disse
Ary levantando-se e dirigindo-se para a janela, pegou as calças no chão,
retirando do bolso o maço de cigarros e um isqueiro descartável... “Mas saiba
que minha vontade é ficar aqui, ou te levar para o meu apartamento e não me
afastar nunca mais de você...” Acendeu o cigarro e ficou na janela, olhando a
noite, pensativo...
- Você fuma... Observou
Marina...
- Estou tentando largar...
Em consideração a você, pois percebi que você não gosta... Viu como eu te
amo... E deu sua risada de lado...
Marina e Ary ainda
conversaram mais um pouco sobre os rumos da investigação, até Ary se arrumar e
ir com relutância para seu apartamento...
Marina logo adormeceu
pensando em seu novo relacionamento... Se estava certa em permitir a evolução
deste contato ou se cometeu um erro...
O prédio em chamas e a
sensação de estar sendo perseguida fizeram com que Marina corresse assustada
para o corredor em busca das escadas de incêndio... Começou a correr pelo longo
corredor escuro e à medida em que passava pelas portas dos outros apartamentos
escutava os gritos de pavor e o som de objetos sendo arremessados... Correndo e
olhando para trás, tropeçou e caiu, virou-se de frente, ouvindo o som de algo
arranhando as paredes e aproximando-se lentamente, sentiu uma presença sinistra
pairando sobre seu corpo, mas não conseguiu distinguir sua forma... Era como um
espectro, uma forma indistinta, escura e aterrorizante, que começou a apertar
seu pescoço e tolher seus movimentos... Marina paralisada e sentindo-se
sufocar, gritou... E acordou com o próprio grito... O corpo suado e todo
embolado nos lençóis cuja ponta se enrolava em seu pescoço... Causando-lhe uma
sensação horrível de sufocamento...
Marina desenrolou-se das
cobertas e dirigiu-se para a cozinha em busca de um copo de água, esperando com
isso dissipar a sensação incômoda de estar sendo observada que persistiu após o
terrível pesadelo...
Quando estava voltando para
o quarto ouviu alguns ruídos no corredor e olhou pelo olho mágico da porta da
sala, sem conseguir ver nada no corredor mal iluminado, chegou a entreabrir a
porta e olhar para os dois lados, mas estava tudo calmo e em perfeita ordem...
Na manhã seguinte, quando
Marina saiu no corredor para trabalhar viu, assustada, as paredes e portas com
horríveis marcas como se algo cortante e metálico tivesse riscado a superfície
lisa...
Caminhou em direção ao
elevador reparando nos tapetes das portas... Todos fora dos lugares... Resolveu
colocá-los nos lugares... Quando estava no final do corredor, próxima às
escadas de incêndio achou um isqueiro muito parecido com o de Ary, mas seria o
mesmo? Recolheu o objeto e guardou-o na bolsa, achando estranho o local onde
estava caído... Retornou pelo corredor silencioso e desceu no elevador que já
estava parado e aberto, como se a esperasse...
Ao chegar no térreo, encontrou
o seu vizinho conversando com Seu Antônio:
- Eu te digo, Seu Antônio, o
prédio foi invadido e vandalizaram todo o terceiro andar... As paredes estão
todas riscadas...
- Pois é, Seu Luís, a Dona
Maria do apartamento 305 já veio aqui me falar e recebi várias reclamações no
interfone... Mas eu estou explicando... Ninguém passou aqui pela portaria...
Mas o vidro da janela para a passagem de incêndio estava aberto... Como se tivessem
conseguido abri-lo, mas ele só abre por dentro... Isso não é incrível? Esses
vândalos mirins aqui da rua estão ficando cada vez mais espertinhos... Ou algum
morador o esqueceu aberto... Mas pode deixar Seu Luiz, que eu já tenho uma
ideia de qual desses engraçadinhos está aprontando e vou na casa da mãe dele
hoje ver o que está acontecendo... E se for mesmo ele, pode ter certeza que a
mãe deste moleque vai dar o corretivo que ele merece...
- É Seu Antônio, mas e o
prejuízo? O condomínio vai precisar mandar pintar as paredes do terceiro andar...
- Eu sei Seu Luiz vou
conversar com a mãe desta criatura e se for mesmo ele, tenho certeza que ela
vai fazer o malandro pintar ele mesmo o corredor...
Marina, depois de prestar
atenção na conversa dos dois homens, cumprimentou-os e saiu para a calçada
iluminada pelo sol da manhã... Foi caminhando pensativa na direção da estação
do metrô, dirigindo-se para o Lar Social onde encontraria seu pequeno “cliente”...
Quando chegou na estação, aproximou-se da linha amarela pintada no piso, como
um alerta aos passageiros, pois a composição se aproximava... e sentiu como se
alguma força estranha a empurrasse na direção dos trilhos... Marina fincou o pé
no chão agarrada a própria bolsa e fez força para trás... virou a cabeça
procurando o que a empurrava... Mas não avistou nada... Havia um círculo vazio
ao seu redor e os outros passageiros a olhavam espantados... Marina apavorada
sentiu que o que a empurrava estava ganhando a batalha e seus pés foram
escorregando lentamente em direção ao trem que se aproximava... Esta luta de
forças que levou apenas alguns segundos, para Marina foi como se estivesse
acontecendo em câmera lenta... Quando estava prestes a cair para a morte... Uma
outra força a empurrou no sentido contrário e Marina caiu sentada na
plataforma, no momento em que o trem parou e abriu as portas bem a sua
frente... Um senhor que estava próximo ajudou Marina a se levantar e exclamou
assustado:
- Nossa menina... Essa foi
for pouco... O que houve? Desequilibrou com esses saltos altos?
Marina muito assustada e com
olhos cheios de lágrimas disse:
- Não sei mesmo o que houve,
mas graças a Deus consegui escapar...
Logo o trem chegou ao seu
destino e Marina caminhou apressada ao encontro de Henrique...
O menino a recebeu
alegremente:
- Oi, tia Marina, que
saudade... Achei que a senhora não ia mais vir me ver...
- Querido, tem só uma semana
que você está aqui e esta confusão toda aconteceu...
- É mesmo... Mas parece que
já tem um tempão, tia... Deixa eu ir para a sua casa com a senhora... Se eu for
não vou mais deixar “Ele” perturbar a senhora...
- “Ele” me perturbar? Ele
quem querido?
- A senhora sabe tia, “Ele”...
Que tentou empurrar a senhora no metrô... E entrou no seu sono ontem...
- Querido... Como você sabe
essas coisas?
- Não sei tia... Eu vejo...
Só isso... A senhora sentiu? Eu consegui ajudar dessa vez...
- Você estava no metrô?
- Não tia... Não me deixam
sair daqui de verdade... Mas eu consegui ir lá ajudar a senhora...
- Como Henrique? Como você
fez isso?
- Não sei tia, mas eu
consegui... Era como se eu estivesse me vendo aqui deitado na minha cama... Mas
estivesse lá perto de você... E consegui te ajudar... A senhora gostou?
- Claro meu anjo, foi bem na
hora... E o que mais aconteceu? Fale-me mais sobre o dia da invasão na sua
casa...
- Tia, mamãe não gostaria
que eu falasse sobre essas coisas... E eu não estou falando, tá? Mas como a
senhora vai ser minha nova mamãe... Acho que não tem problema...
- Querido, eu não posso ser
sua mãe... Sou apenas uma advogada, que está tentando ajudar você... Me
interessei por este caso... Não sei por quê...
Henrique apenas a fitou com
seu olhar profundo e esverdeado, como se conhecesse mais do futuro que todos
nós...
Henrique segurou as mãos de
Marina e começou a contar sua história... Foi como se ela entrasse em um transe
e foi tragada... Podendo ver e sentir, como uma expectadora “in loco”, um de
seus pesadelos:
- “Ele” chegou... Sempre ia lá em casa,
conversar com mamãe... Mas mamãe não deixava “Ele” conversar comigo... Mas
“Ele” conversava, tia... Mesmo eu ficando no meu quarto o tempo todo... Eu
sabia que “Ele” estava lá por minha causa... Era como se ele soubesse de tudo
que mamãe não queria que ele soubesse... Na noite em que eu joguei os móveis
sobre ele... Ele tentou convencer mamãe a deixá-lo me ver... Mamãe não gostou e
eles começaram a brigar... Eu ouvi os gritos e saí do quarto... Quando ele me
viu... Nossos olhares se encontraram de uma forma estranha tia... Não sei explicar...
Parece que “Ele” estava tentando entrar em mim... Eu me apavorei, tia e comecei
a jogar as coisas, mamãe entrou no meio... E “Ele” empurrou a mamãe...
Henrique soltou as mãos de
Marina e a conexão se desfez... O menino continuou:
- Ele deixou cair um
isqueiro de ouro... E eu guardei... Está escondido tia, não mostrei para
ninguém...
Marina ainda meio atordoada,
perguntou a Henrique:
- Onde está o isqueiro
Henrique? Você pode me dar? Através dele podemos encontrar o culpado...
Henrique fitou Marina com
seu olhar esverdeado e profundo e disse:
- Claro tia Marina... Mas a
senhora promete que vai tentar ser minha nova mamãe?
- Querido... Prometo que vou
pensar seriamente nesta possibilidade, está bem?
Henrique sorriu largo, seus
olhos brilhando intensamente... Mas quando se virou para mexer embaixo da cama,
em uma caixa... Seu rosto transformou-se em uma máscara de seriedade, os olhos
revelando a mesma expressão profunda e sinistra de sempre...
Retirou o isqueiro de dentro
da caixa e entregou-o a Marina, já com o sorriso brilhante refeito...
Marina pegou o objeto e
reparou nas iniciais gravadas nele... (ARO)... Pensou consternada: “Nossa...
Quase Ary... Isso é incrível, mas eu não sei o nome completo do meu próprio
namorado...” E sorriu divertida com suas próprias divagações, colocando o
isqueiro dentro da bolsa e dizendo ao seu pequeno “cliente”:
- Pode deixar querido, que
vou fazer tudo que estiver ao meu alcance
para te ajudar...
Henrique disse, com seu
olhar enigmático, abraçando Marina em uma despedida:
- Eu sei que sim, tia
Marina...
Marina saiu do Lar Social e
foi direto para seu escritório...
Quando chegou e abriu a
porta de repente, viu uma caneta que flutuava na direção de Ary que estava
sentado na sua mesa... A caneta caiu ao chão com um baque surdo e Ary
levantou-se de um pulo...
Marina perguntou:
- Mas o que significa isso,
Ary?
- Calma querida, eu posso
explicar...
- Então explique-se e
rápido, pois isso está me deixando apavorada Ary...
- Bem... Não tem outra forma
de dizer, querida... “Eu tenho os mesmos poderes sensoriais que o Henrique”...
- Você o conhece
pessoalmente?
- Ainda não tive o desprazer
de conhecer a figurinha maquiavélica não...
- Lá vem você com suas
frases desagradáveis...
- Bolas, o que posso dizer
de um menino que já matou duas pessoas?
- Ary, nada me convence de
que ele seja culpado... As provas que estão surgindo estão inocentando o
menino...
- Provas? Que provas? Só
temos a palavra dele... Em uma história muito mal contada...
- Ary, porque você não me
disse dos poderes... Seus e dele... Você já sabia e suprimiu esta informação
dos relatórios...
- Bem, eu não queria que
você se assustasse e se afastasse de mim... E não queria que você pensasse que
ele é inocente, por causa dos poderes, o que de fato aconteceu, né? E eu te
digo: Ele não é inocente!
- Nossa Ary... Ele é só um
garotinho... Estou pensando seriamente em adotá-lo Ary... Ele ficou sozinho no
mundo... Precisava ver o sorriso dele quando me viu...
- Não faça isso querida...
Ele é um manipulador... E tem o poder da sugestão... Ele deve estar usando os
poderes dele em você... Mas comigo ele não consegue... O espertinho...
- Ary, Ary, se você conhece
o Henrique pessoalmente acho bom você falar de uma vez... Chega de omissões e
mentiras...
- Já disse que nunca vi o Pestinha...
E deu uma risada estranha, como se quisesse esconder os próprios pensamentos...
Marina e Ary discutiram
bastante sobre o ocorrido e por fim Ary voltou para seu próprio escritório que
ficava no mesmo prédio...
Marina passou a visitar
Henrique todos os dias durante a semana que se seguiu, e resolveu levá-lo para
casa como uma experiência para a adoção...
Na sexta-feira ao final do
expediente Marina foi ao Lar Social para pegar Henrique que não cabia em si de
alegria... Iria passar o final de semana com sua pretensa mamãe...
Marina também estava feliz e
falou para o menino:
- Querido, vamos dar uma
passadinha lá no escritório? Vou pegar alguns documentos que esqueci e quero
estudar durante o fim de semana...
- Claro tia Marina, quero
mesmo conhecer seu escritório e seus amigos do trabalho...
Marina o olhou espantada com
seu jeito adulto de falar... Mas sorriu para o garotinho tão lindo e de olhar
brilhante...
Ao chegar ao escritório,
quem estava lá... Mexendo em sua gaveta? Ary...
Marina perguntou admirada,
sentindo Henrique se escondendo atrás de sua saia... O que foi uma surpresa já
que o menino apesar de tudo que aconteceu nunca tinha demonstrado medo:
- Olá Ary... O que está
procurando na minha gaveta? E puxou Henrique para dentro do escritório...
Ary levou um susto e disse:
- Nada, nada... Mas quando
viu Henrique ficou pálido como se tivesse visto um fantasma...
Henrique puxou a saia de
Marina e com um dedinho tremulo apontou Ary e disse:
- Tia Marina, é, é, é,
“Ele”!
- Ele quem Henrique?
O homem tia, que empurrou a
mamãe da escada...
Marina olhou para Ary, e
pela sua expressão percebeu que Henrique falava a verdade...
- Marina eu não empurrei a
Simone da escada... Foi esse protótipo do mal, quem fez isso... E riu
sarcástico da própria piada... Mas quando viu a expressão séria de Marina parou
de sorrir e tentou se explicar: - Marina, meu amor... Eu estava tentando fazer
a Simone enxergar o risco que estava correndo, e estava quase conseguindo...
Quando ele percebeu que não estava mais conseguindo manipular a mãe adotiva...
Fez com ela o mesmo que fez com a mãe biológica... A matou!
Nisso os seguranças que
trabalhavam no prédio ouviram a discussão e se aproximaram da porta do
escritório...
Henrique com seu olhar suave
disse à Marina:
- Tia, ele estava procurando
a prova, na sua gaveta...
- Que prova Henrique
querido?
- O isqueiro tia... Que eu
te dei... Com as iniciais...
Marina, que havia se
esquecido do isqueiro pegou ele na bolsa encontrando também o outro descartável
achado no corredor do prédio...
- Ary, diga-me que isso tudo é um engano...
Que vc nunca conheceu a Simone, que não conhece o Henrique e que esses
isqueiros não são seus...
Henrique perguntou com sua
voz infantil:
- Qual o seu nome completo?
- Ora seu pequeno
dissimulado, cale-se ouviu bem...
Henrique se escondeu atrás
de Marina e os objetos da mesa flutuaram alguns centímetros...
Marina se ajoelhou em frente
a Henrique e disse-lhe:
- Calma querido, pode deixar
que “mamãe” resolve isso...
E levantou-se olhando firme
para Ary e perguntando:
- Diga-me Ary, qual o seu
nome completo?
Ary mostrou-se indignado:
- Não acredito que este
pequeno maquiavélico está tentando me incriminar... E vocês estão acreditando!
O segurança mais próximo
disse irritado:
- Diga logo seu nome
senhor... Ou precisaremos olhar em sua identidade?
- Tudo bem, tudo bem, meu
nome é Ary Ramos Oliveira... Satisfeitos?
- São as iniciais do
isqueiro de ouro Ary...
- Marina esse isqueiro é
realmente o meu... Mas ele nunca teve minhas iniciais... Foi o Pestinha quem colocou
elas aí... Eu te digo, os poderes dele são muito maiores que os meus,
querida... Pense, querida, eu nunca seria capaz de lhe fazer qualquer mal...
- Então diga-me: Por que
esse isqueiro descartável estava no corredor do meu prédio, naquela noite Ary?
Querida, eu fui fumar...
Abri a janela de vidro que dá para a escada de incêndio... Fumei meu cigarro...
E fui para casa... Devo ter deixado o isqueiro cair sem percebe...
- Tia... Foi ele quem estava
tentando entrar em seu sonho... Queria ficar em seu apartamento... Eu impedi
“mamãe”... E fitou Marina com seu olhar de adoração...
- Sinto muito Ary o isqueiro
com suas iniciais encontrado na cena do crime... É prova suficiente para você
ser detido para averiguação...
- Nossa... Isso não pode
estar acontecendo... Foi esse Filhote de Cruz Credo que pegou meu isqueiro,
gravou minhas iniciais e disse que estava na cena do crime, Marina...
- Henrique, ouça o que você
está dizendo... Que júri vai acreditar em uma situação tão improvável?
- Marina, tudo neste caso é
estranho e improvável, querida... Você não está acreditando na minha versão?
Marina olhou para Ary, com
seu jeitão grosseiro e olhou para Henrique com sua carinha de anjo e
decidiu-se:
- Seguranças podem levá-lo e
chamem a polícia...
- Marina, meu amor... Por
favor... Não faça isso... Pense na nossa relação...
- Ora seu cafajeste! Quando
penso que acreditei e confiei em você e você estava mentindo o tempo todo...
Marina abaixou-se e abraçou
Henrique e com isso não pôde ver seu olhar de triunfo e sua expressão
maquiavélica...
- Vamos para casa querido,
agora seremos só nós dois... Eu cuidarei de você...
- Eu também cuidarei de
você, mamãe... Disse Henrique com seu olhar maldoso...
Levantou-se e deu a mão a
Marina saindo e fechando a porta do escritório... Onde os objetos se
movimentavam lentamente sobre a mesa em uma arrumação metódica e simétrica...
fim

